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Mensagem por Aarin Federleicht em Dom Abr 28, 2019 9:31 pm

Contos Fantásticos Falkor10

Este tópico é dedicado a relatos fantásticos que tenham alguma coisa a nos (re)velar de acordo com a proposta do fórum.

A palavra "fantasia" é herança grega: "phantasia" (manifesto, visível), formado a partir do verbo "phaino" (iluminar, lançar luz, fazer aparecer) ou do substantivo "phos" (luminosidade). É uma origem comum à palavra "fenômeno". Assim sendo, aqui podemos tentar revelar aquilo que a incidência direta da luz da linguagem descritiva algumas vezes queima e desnatura.Sejam histórias autorais ou mitos conhecidos, coisas vividas ou imaginadas, sintam-se à vontade para compartilhar sempre respeitando a própria individualidade e a do próximo, e assumindo a responsabilidade total pelo que posta.

Deixo aqui um texto sobre fantasia que gosto bastante e com o qual me identifico (Fantasia - Alice Liquor), e logo abaixo a minha pequena fantasia sobre as histórias do mundo.

"Em uma antiga árvore brotavam vários galhos em todas as direções formando uma copa verdadeiramente extensa, de vários quilômetros. Aqueles que habitavam sob seus galhos periféricos viam o azul do céu e o brilho das estrelas, mas sofriam as vezes com o sol e com a chuva pela pouca proteção da folhagem espaça, e se nutriam pouco dos frutos mirrados e de fracas sementes que saim das pontas secas. Aqueles mais ao centro da circunferência que a copa criava gozavam de sombra, frescor e proteção da chuva; comiam os suculentos, robustos e nutritivos frutos que caiam dos galhos altos atirando suas promissoras sementes no chão e, as vezes, tinham a sorte de receber dos céus um galho fresco cheio da seiva medicinal da árvore, mas não conheciam nada nem acima nem abaixo de si, contavam indefinidamente com a sorte, e não viam nada de grandioso que brotasse vingar pois faltava luz do sol. Os que se aproximavam do centro, o ponto mais obscuro, úmido e silencioso da árvore por ser o ponto com a folhagem mais densa, conheciam a sua estrutura, viam as direções para onde as raízes se espalhavam quase como um mapa, conheciam os poderes curativos de sua seiva fresca, podiam escalar seu tronco, desbravar seus galhos, tomar os seus frutos por si mesmos, conhecer as aves e insetos que levavam as sementes para longe e, se tivessem coragem, ver o nascer e o pôr do sol e da lua quase entre as estrelas, onde o horizonte era a própria circunferência da terra."


Última edição por Aarin Federleicht em Ter Abr 30, 2019 8:33 pm, editado 2 vez(es)

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Mensagem por Aarin Federleicht em Dom Abr 28, 2019 9:44 pm

Conto de inverno


Contos Fantásticos Orphic11

Pai e filho viviam em uma pequena fazenda, juntos e sozinhos. A mãe morrera pouco depois do nascimento do menino, acometida por um mal respiratório trazido pelos últimos ventos do outono e que abateu alguns dos mais frágeis daquela região do mundo. Os vizinhos, não tão próximos como costuma ocorrer na cidade, foram solidários de inicio em confortar a reduzida família e ajudar o pai solitário, mas as trilhas que ligavam as fazendas pareciam ficar mais longas à medida que o inverno as percorria, as pegadas apagadas pelas chuvas. Assim, o homem teve que aprender a cuidar do menino, da terra e do próprio homem e, pela solidão, teve medo de perder cada uma dessas coisas.

O menino vingou os invernos protegido pelo calor do peito do pai e aproveitou as primaveras, verões e outonos sustentado pelas mãos do pai. Cresceu sem sentir falta de nada e sem esforço, sem ter que trabalhar um dia sequer nas tarefas da fazenda, assumidas todas pelo homem. Seus esforços eram guiados por sua simples curiosidade de criança, avido por conhecer o mundo ao redor. Tudo era estável e o mundo se lhe apresentava benevolente.

Ao se aproximar o nono inverno desde de a chegada da criança, num dia em que o homem trabalhava na ultima colheita daquele ano, o menino, brincando ao redor do campo, encontrou um pequeno ovo em meio as folhagens aos pés de uma árvore. Correu até seu pai para mostrar o ovo que havia fugido do galinheiro e se perdido na floresta, preocupado em coloca-lo de volta em seu lugar junto à mãe para que pudesse nascer. O homem sabia que aquele não era o ovo de galinha. Escondeu sua preocupação do menino e pediu que lhe apontasse o lugar onde encontrara o objeto. Em seguida, levou o menino até o escuro do quarto onde guardava suas ferramentas, acendeu uma vela e colocou o ovo contra a luz. O que apareceu para a criança, foi uma linha enrolada dentro da casca.

- Filho, este ovo não é das galinhas, é de um animal que você ainda não conhece, a serpente. Pelo tamanho é de um tipo que pode crescer bastante. Elas se alimentam de animais menores e são muito perigosas. Algumas podem matar com apenas uma mordida, outras podem se enrolar no corpo de um animalzinho até sufocá-lo. Elas trocam de pele, se escondem e podem se disfarçar de galhos de arvores e pedras. Quero que você tome muito cuidado quando estiver brincando lá fora.

O menino, ao invés de ficar assustado com o alerta do pai, teve sua curiosidade atiçada. Existia uma animal que nascia de ovos, mas que não era um pássaro, se parecia com uma linha enrolada e era capaz de trocar de roupa e se vestir de árvore e pedra. Pediu ao pai que cuidassem do ovo como faziam com os das galinhas, ele queria ver como era aquele bicho, o que fazia, como vivia. Partiu o coração do pai negar alguma coisa ao menino, mas mandou a criança com a cara emburrada para casa, guardou o ovo em uma caixa no quarto de ferramentas, e voltou para o campo. Antes de o sol se pôr, armado de sua foice, foi até o lugar que o menino apontou e encontrou o ninho nas raízes de uma arvore logo acima do local da descoberta. A cobra mãe tinha a mesma cor do tronco que a escondia. Sozinho, o homem não hesitou em proteger sua própria família.

Naquela noite, o homem dormiu cedo querendo deixar para trás o cansaço do trabalho e a tensão do dia. Ao buscar suas ferramentas na manhã seguinte, pronto para concluir seu trabalho, o homem se lembrou da caixa e do ovo. Ao abrir a tampa, pronto para se livrar de seu conteúdo, viu que a cobra havia nascido. Era um animal surpreendente para um recém-nascido, totalmente formado, de uma cor tão escura que os padrões de sua pele eram quase imperceptíveis. Não podia dar um fim àquilo antes de mostrar ao filho.

Quando o menino viu aquilo, seu entusiasmo parecia não ter limites. Que animal curioso: comprido; brilhante; sem pernas, mas ágil; nascido de um ovo. Ele queria saber tudo sobre a criatura, queria ver como aquilo crescia. Para o homem, o brilho nos olhos do menino era o que surpreendia. Os apelos da criança derreteram com facilidade sua resolução e ele pensou: por que não? Seria uma boa oportunidade para o menino aprender sobre o mundo e as coisas da natureza de forma segura, controlada pelo pai. Ele ficaria responsável pela alimentação e cuidados também do animal até que fosse seguro para o menino.

Assim se passaram mais nove anos. O pai trabalhava por ele, pelo menino e pela fazenda. O menino observava, aprendia e imaginava o mundo. A serpente crescia sem muita perturbação dentro de uma cristaleira adaptada em aquário no quartinho de ferramentas, sob o olhar de um e cuidados do outro.

Uma noite, perto do nono inverno depois da descoberta do ovo, após um longo dia de trabalho perto da ultima colheita, o homem foi alimentar a serpente. Sua barba já era branca pelo cansaço; sua pele queimada pelo sol era bastante enrugada e, seca, parecia um mosaico; sua coluna curvada já começava a ceder ao peso dos anos. Por todo aquele tempo nunca deixou a serpente aos cuidados do filho, ainda o enxergava como um menino. Naquela noite, ao abrir a porta da cristaleira para atirar lá dentro um camundongo recém abatido no celeiro, aquele senhor viu suas vistas escurecerem, sentiu seu corpo ficar leve e parecer rodar no ar até não perceber mais nada.

Quando acordou estava em um lugar escuro e com o corpo apertado, imobilizado, como se vestisse uma camisa de força. Tentou se mexer e ouviu ecoar em seu crânio um grito sibilante de dor:

- O que está fazendo dentro de mim? Por que me provocas dor?
- Dentro de quem? Quem fala dentro de minha cabeça?
- Sou a serpente que criaste desde ovo. Não falo de dentro de tua cabeça, mas tu me ouves desde meu interior. Te engoli inteiro quando vi teu corpo inerte caído no chão, pensei que era a oferta do dia, um presente.
- Monstro traiçoeiro! Me cospe para fora já ou acabo com tua existência imunda!
- Não posso fazer isso pois conheço tuas intenções. Sinto o cheiro de teu medo desde o início, vais matar-me ainda que te deixe sair. Tu já estás velho e não tens força para fugir ou me abrir por dentro.
- Serpente ingrata! Te alimentei e cuidei desde sempre e é assim que me retribuis, me devorando?
- Não me cuidastes por amor a mim, mas por teu filho, pois esta é tua natureza. Minha natureza é devorar e não posso ir contra ela. Te devoro e devorarei tudo aquilo que se apresentar a mim como presa.
Só então o homem sentiu a ira dar lugar ao pavor. Seu filho estava na fazenda e a serpente estava livre.
- Não permitirei jamais que devores meu filho! Posso não ter forças para sair, mas se sentir que estás a me digerir, te causarei enorme dor até que não mais suportes.

A serpente refletiu. Não podia libertar o homem, pois morreria. Não podia comer nada enquanto ele estivesse ali, pois não havia espaço. Não podia dissolver o homem rapidamente pois ele podia lhe causar uma dor verdadeiramente intensa, e não queria isso. Ele era uma presa grande e robusta, poderia nutri-la durante muito tempo se ela soubesse administrar sua condição. Com sua melhor voz de desdém a serpente anunciou ao homem:

- Faz como quiseres, não te deixarei sair. Tua força agora tende apenas a diminuir. Tu já compartilhas da minha natureza, de outro modo não poderias me ouvir, e será cada vez mais assim.

E assim a cobra se arrastou lentamente para a mata que circundava a fazenda.

Na manhã seguinte o rapaz não deu falta do pai e cuidou da casa. No almoço, estranhou a ausência e durante a tarde saiu em sua procura. Percorreu toda a fazenda sem nada encontrar. Com o sol se pondo, voltando ao lar, viu as pegadas das botas do homem na entrada do quarto de ferramentas que tinha a porta aberta. Entrou chamando pelo pai, acendeu uma lamparina e o que viu foi a cristaleira aberta e um grande rastro na poeira e serragem do chão. Uma série de pensamentos aterradores invadiram sua mente por apenas um segundo: a imagem de seu pai sozinho naquele quarto com a serpente a solta; um animal agonizante encolhido num canto da cristaleira; o bote certeiro num camundongo. Foram pensamentos que surgiram e não tiveram tempo de se instalarem na consciência do rapaz, afundando rápido no mar de terror que paralisou seu corpo no lugar. Assim que pode, o menino agarrou uma foice que estava próxima e correu para casa. Fechou todas as portas e todas a janelas e se encolheu no quarto tremendo de medo. A serpente poderia estar em qualquer lugar, devia ter cuidado. E seu pai... ficaria muito desapontado quando soubesse que o animal havia fugido.

Durante todo aquele inverno o rapaz ousou sair de casa apenas nos primeiros dias, a procura do pai. Depois se trancou em casa, devorando as provisões já estocadas para o período e sendo devorado pelo medo. Ao fim do inverno, a escassez batia à porta, não sabia racionar a comida dos animais e desperdiçara um tanto. Ele mesmo não sabia caçar e a ultima colheita não foi completa.

Na primavera, se atreveu sair, sempre com a pequena foice na cintura, absolutamente alerta ao ambiente que o cercava. Tudo o assustava. A serpente poderia estar em qualquer lugar, poderia pegá-lo pelo pé no próximo passo, poderia emboscá-lo a partir de qualquer árvore. Colheu as primeiras frutas que surgiram e tentou fazer armadilhas para os pequenos animais que saiam de suas tocas. Não sabia plantar, mas fez o melhor que pôde com uma pequena horta nos fundos de casa. Durante o ano vendeu quase todos os animais da fazenda pelo preço que pode a quem quisesse comprar.

Quando as coisas apertaram, pediu ajuda aos vizinhos. Mentiu que o pai estava doente, que a colheita do ano anterior foi pobre e deu sementes ruins. Disse que a fazenda era grande de mais para um homem só cuidar. Despistou todos que pretenderam fazer uma visita ao velho homem e ninguém desconfiava, afinal os dois sempre foram pessoas reclusas. Trabalhou nas fazendas da região que receberam aquele menino inexperiente, fraco e medroso por pura consideração ao antigo amigo, seu pai, que não viam havia muito tempo.

Aquele foi o ano mais duro da vida do rapaz. Teve que cuidar de si mesmo, aprender tudo o que não aprendera em seus dezoito anos sobre cuidar de uma fazenda, enfrentar seus medos em silêncio convivendo com o fantasma da serpente, e lidar com a solidão de estar no mundo tendo que prover para si mesmo.

No ano seguinte, com a experiência que adquiriu, passou a cuidar da sua própria produção, no solo que era de sua família. Conheceu cada canto de sua fazenda, se familiarizou com cada ferramenta e cada possibilidade e necessidade de trabalho que havia ali. Aprendeu a se precaver, seu medo fazia com que tivesse o máximo de cuidado em cada atividade. Cuidava não só de sua segurança, mas também da organização das coisas e da casa, pois ainda imaginava que seu pai podia voltar a qualquer momento. Nos dias frios esse pensamento o perturbava um pouco mais, alguma coisa na ideia o incomodava até que conseguisse dormir. Então sonhava que estava no meio do campo, e a voz de seu pai chamando de dentro da escuridão da mata cerrada que circundava a fazenda.  Quando acordava nunca lembrava do inicio ou do fim do sonho e estava mais preocupado com as questões práticas da produção e da segurança.

Assim passaram os anos. O menino virando homem e aprendendo a cuidar da casa para a chegada de seu pai, cultivar a fazenda e se precavendo da serpente. Com o tempo sua vida se moldava a todo aquele lugar, cada movimento que antes lhe era trabalhoso se tornava sua natureza e, para além da necessidade, seu aprendizado lhe permitia produzir para seu próprio conforto.

No nono outono desde a partida de seu pai, após a ultima colheita, o homem se preparava para dormir. Entrou no quarto coberto por uma coberta de lã, numa mão uma vela que deixou acesa sobre o criado mudo, na outra a foice de cabo cumprido para a colheita, que deixou encostada na cabeceira, ao alcance da mão. Naquela noite sonhou que estava no meio do campo e tudo o que se ouvia era o farfalhar da mata com o vento, que conversava com ele.

Do lado de fora da casa havia o som de uma serpente que se arrastava, tão grande que dava uma volta completa na casa. Sua boca encontrou a calda exatamente sob a janela do quarto em que o dono da fazenda dormia. Ela ergueu sua cabeça negra olhando pela janela e, por mais um ano, observou o homem dormir na noite de seu aniversário.

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Mensagem por Aarin Federleicht em Seg Jun 24, 2019 8:41 pm

Invicto



Contos Fantásticos _1063910

Para uma criança que cresça cercada pela natureza, o mundo é campo aberto a todo tipo de aventura. E o pequeno Jair, pelo que sei, não era diferente de nenhuma criança que conheci. De imaginação muito viva, brincava com o que tinha à mão tirando as histórias mais mirabolantes possíveis dos pequenos acontecimentos do canto do mundo onde morava. Cresceu, vejam bem, em uma casinha enfiada no meio do mato, um pequeno roçado que seus pais cuidavam também com a ajuda dele, onde o único acesso era uma estradinha de chão batido aberta e mantida pelos pés de quem, de tempos em tempos, passava ali.

Além de se enfiar pelo mato pra desbravar um mundo que mudava a todo tempo se mantendo sempre o mesmo, a maior alegria de Jair era ouvir os causos que os compadres de seus pais contavam quando visitavam o roçado ou eram visitados por sua família. Em especial um desses compadres, seu próprio padrinho, um senhor já de idade que fora amigo de seu avô, que contava, entre um pedaço de rapadura, um bolo de fubá e um cafezinho no meio da tarde, causos dos tempos em que o povo começou a chegar por aquelas bandas. Eram histórias de visagens, bolas de fogo, redemoinhos de vento assombrados, e lugares escondidos entre as arvores ou no meio da terra difíceis de encontrar e mais difíceis ainda de sair, arranjados Deus sabe por quem muito tempo antes daquela comunidade rural se estabelecer.

- Essa terra já engoliu muita gente, meu filho. Tu toma cuidado quando tiver pelo mato se ver algum sinal dessas coisas que te conto.

O menino ouvia as histórias, mas nem tanto o conselho. Vivia distraído, correndo de um canto para outro aproveitando a liberdade que seus pais lhe davam e o tempo que Deus lhe emprestava, se enfiando no mato para viver as histórias, em sua imaginação, que ouvia do padrinho. E foi numa dessas que, me disse que ele, acabou vivendo de verdade uma história própria que se tornou a primeira a ser contada aos pequenos que, mais tarde, se achegassem aos seus pés.

Diz ele que, num dado dia, ainda menino, em que acordou antes do sol para caçar preás, se embrenhou no mato procurando rastro do pequeno bicho. Suas armas eram um estilingue para atordoar e um espeto de madeira para abater e carregar. Por sorte não demorou muito para encontrar um deles dando sopa, não tão longe de sua casa. Tentou acertar o bicho com o estilingue, mas errou por pouco e o preá saiu em disparada. Sem se abalar, foi com cuidado seguindo a trilha deixada pelo animal e o encontrou parado em frente a uma toca, um buraco no chão aos pés de uma árvore. O que chamou sua atenção, no entanto, foi uma borboleta pousada sobre a entrada da toca, em uma raiz. Era a coisa mais bonita e curiosa que ele já tinha visto. Ela era grande, quase do tamanho de um pequeno passarinho. Suas assas abertas eram de um colorido que ele não sabia definir pois mudavam de tom com os raios de sol e, ao se moverem, pareciam feitas de um tecido delicado. Impressionado pela visão e distraído como era, deu um passo à frente em direção à toca assustando o preá, que se escondeu no buraco rapidamente, e fazendo com que a borboleta levantasse voo. Ele conta que a visão daquelas asas coloridas prendeu sua atenção de tal modo que ele não conseguia pensar em mais nada, como se estivesse enfeitiçado. Começou a seguir a borboleta que voava com tranquilidade por entre as árvores, deixando para trás a caça, a trilha, sua casa e os conselhos do padrinho.

Andou assim por não sabe quanto tempo, com os olhos vidrados no colorido, tropeçando em raízes de árvores, indo cada vez mais para dentro da mata fechada. Quando deu por si estava de frente a uma gruta ou caverna aberta aos pés de um barranco, a borboleta voando para dentro da escuridão, seu colorido desaparecendo e quebrando o encanto. Olhou em volta e não fazia ideia de onde estava, nunca tinha se enfiado tão fundo no mato. Olhou para cima e o sol parecia não ter se movido, o tempo não havia passado. Confuso com tudo aquilo, deu as costas para a gruta e se preparou para procurar a trilha de volta por onde viera. Foi quando aconteceu: o vento brando daquela manhã, que sacudia o alto das copas das árvores, se intensificou e começou a soprar forte levantando poeira e folhas do chão. Jair levou os braços ao rosto para proteger os olhos, mas ainda pode ver o redemoinho que se formou em sua frente, enorme e rápido, se movendo em sua direção. Ao atingir o peito do menino o redemoinho teve impacto como de dois braços fortes que o elevaram do chão e arremessaram para dentro da escuridão onde a borboleta colorida havia se escondido.

A queda não foi tão dura, pelo menos não tanto quanto o choque daqueles acontecimentos. Sinceramente, Jair não sabia nem o que pensar sobre tudo aquilo, a surpresa não lhe permitia refletir muito. Estava simplesmente imerso na impressão do absurdo da sequência de infortúnios que continuavam a acontecer.

Se levantou batendo a poeira da roupa e tentando enxergar o que havia ao redor. A entrada da caverna por onde ele caíra, que parecia ser a única fonte de luz alí, ficava no topo de uma parede lisa, não tão alta, mas que ele, daquele tamanho, ainda não era capaz de alcançar. O teto baixo, quase no mesmo nível da entrada, ia ficando cada vez mais alto até se perder num corredor que se estendia diante do rapaz, imerso em escuridão. O menino ficou ali por um tempo, procurando um meio de alcançar a saída, sem nenhum sucesso, e gritando por ajuda, sem nenhuma resposta. O jeito, pensou ele, era ver se não tinha nenhuma outra saída por ali. Não gostava muito da ideia de entrar no escuro da terra sozinho, embaixo do chão era o reino dos mortos que povoavam as piores histórias que os mais velhos contavam, mas se a borboleta entrou, talvez tenha saído pelo outro lado. Estufou o peito de ar pra se convencer que tinha coragem, disse pra si mesmo que não ia muito longe na escuridão, e começou a caminhar para dentro da caverna tateando a parede para ter um ponto de referência.

De inicio alguma coisa ainda podia ser vista pela luz da entrada atrás de Jair, mas não demorou muito até que o breu completo envolvesse o menino. A vontade de voltar era enorme, os passos eram pequenos e vacilantes, mas ele se convencia que ia caminhar só mais um pouquinho, só mais alguns passos para ter certeza se havia alguma saída mais à frente. O chão era de uma terra fofa e não oferecia empecilhos para a caminhada. O ar úmido ia ficando cada vez mais pesado e parado, o silêncio se fazendo tão presente quanto a escuridão, sendo quebrado apenas pelos barulhos da respiração e caminhada do próprio Jair. A parede em que se apoiava começou a fazer curvas que ele se esforçava para prestar atenção caso tivesse que voltar. E foi numa dessas curvas que a escuridão também foi quebrada: no teto, pequenos pontos esverdeados brilhantes começaram a aparecer. Logo imaginou que fossem vagalumes, um sinal que por algum motivo deu mais firmeza às pernas do menino que já tremiam de agonia. Afinal havia vida ali dentro. À medida em que foi avançando mais pontos apareceram até que o teto estivesse coberto por eles até onde se podia enxergar. Parecia um céu estrelado, um caminho marcado acima do chão.

Respirando aliviado por ter pelo menos uma trilha a seguir, o menino deu mais firmeza aos passos e a caminhada tomou ritmo. A luz que vinha de cima não iluminava quase nada, mas era o suficiente para definir onde estava o teto, muito alto, e as paredes. A vida, no entanto, não facilita, e logo o chão fofo foi dando lugar a rocha lisa de onde ele conseguia enxergar apenas fracas silhuetas de estalagmites, pouco antes de tropeçar, na quase inexistente luz verde. E como se não bastasse, depois de tanto tempo de caminha já distraída das curvas do caminho, surgiu uma bifurcação. “Poxa vida, como eu posso ser tão cabeça de vento pra parar de prestar atenção no caminho dos meus pés e pensar apenas no caminho de estrelas acima da minha cabeça, que eu nem posso tocar?”. O pequeno Jair se sentou no quase escuro, tentando decidir que caminho tomar. Rezou pro seu anjo da guarda, fez promessas que nem ele sabia se poderia cumprir a todo santo que lembrou para que lhe desse sinal do que fazer. Nenhuma resposta veio, apenas os pensamentos acelerados do menino passavam pela escuridão, as vezes preocupado com seu destino, as vezes simplesmente vagueando em qualquer besteira. Dentre os devaneios veio uma das histórias de seu padrinho em que ele contava justamente de uma vez em que se perdeu no mato e não adiantava o quanto andasse, sempre voltava pro mesmo lugar, e o que o salvou foi o cheiro do bolo de fubá que sua esposa preparava naquela tarde, que ele seguiu de olhos fechados até a porta de casa. Eis que a mente do menino se iluminava com alguma ideia. Não era nada certo, mas valia a pena tentar. Levantou-se, deu alguns passos no primeiro caminho, fechou os olhos, inalou fundo algumas vezes e não sentiu nada de diferente. Voltou alguns passos, entrou no segundo caminho e repetiu o processo. Era quase imperceptível, tanto que ele não sabia se estava imaginando, mas o ar ali tinha um cheiro meio doce e enjoado de coisa podre. Decidiu seguir o olfato e partiu pelo caminho de ar mais puro.

Sete bifurcações apareceram e sete vezes ele usou o mesmo método, deixando que o olfato lhe indicasse o caminho de ar mais puro. Desta vez contou, sem distrações, cada uma das escolhas que fez, memorizando o caminho, criando um mapa na cabeça.

Finalmente, após a sétima escolha, o caminho voltou a ser um corredor, o teto foi ficando cada vez mais baixo e o trecho mais à frente ficou bem mais iluminado. Surpreso, Jair apertou o passo achando que tinha encontrado uma saída apenas para descobrir que, na verdade, não havia mais chão: à sua frente o que se estendia pelo corredor era um tipo de lago que ia até onde podia enxergar, com a agua iluminada da mesma cor das luzes teto. Olhando para cima ele percebeu então que aquelas luzes, agora mais próximas, eram filetes que pendiam de larvas presas no teto de onde as vezes uma gota luminosa caia.

Depois de tanta caminhada, o menino tinha menos segurança de voltar do que de seguir caminho. Lembrava de cada trilha escolhida nas bifurcações, mas antes disso havia andado a esmo na escuridão. Estufou mais uma vez o peito com ar e com toda a segurança que as tardes nadando nos rios e açudes da região lhe davam, entrou na água brilhante disposto a atravessa-la, um pé depois do outro. O começo era raso, mas logo o caminho ficou fundo o suficiente para que ele tivesse que realmente nadar. A água era morna e tranquila, dava uma sensação enorme de serenidade; tinha um cheiro doce que nunca tinha experimentado antes; ao toque dos lábios tinha um sabor fresco, de saciedade. Nadou num ritmo lento para não se cansar, e a própria água de algum modo lhe permitia que boiasse sem grandes problemas. Jair estava tranquilo. Muito tranquilo. Tão tranquilo quanto se lembrava de já ter sentido um dia. Tão tranquilo que cada vez menos queria fazer o esforço de nadar e apenas boiava por bastante tempo. Naquela semi-escuridão, suspenso em fluído morno e sereno, sem qualquer barulho para incomodar, o menino começou a sentir seu corpo dissolver e a mente se espalhar pela água. As imagens dos seus pensamentos desta vez se projetavam literalmente no vazio, ele podia ver o que pensava e se mover pelas imagens através das emoções que elas lhe traziam. Jair estava se derramando e nem percebia.

O coração batia cada vez mais devagar, a respiração cada vez mais lenta, e as imagens que projetavam no vazio começaram a se apagar uma por uma, como estrelas queimando até o fim, até que uma imagem sobrou: a varanda da casa de sua casa onde seu pai sentava para descansar no fim de tarde e sua quanto sua mãe bordava e cantava alguma cantiga antiga. A saudade que apertou em seu coração fez a imagem ficar mais próxima e mais viva, mais brilhante que a água ou o teto. Esse aperto fez seu coração bater forte de novo e o ar invadiu seus pulmões. Em um lampejo de consciência o menino percebeu que estava começando a afundar e voltou a bater braços e mãos rapidamente. Ao seu redor, seus pensamentos acelerados ainda apareciam como assombrações coloridas, mas ele se esforçava por lembrar da varanda de casa. Nadou com a força que tinha, com o ar que tinha e na direção daquele lugar que era o único porto que valia a pena chegar. O esforço era do corpo e ele via se aproximando no corredor alagado o seu ponto de chegada, mas era o coração que lhe aproximava da margem. Chegou do outro lado no fim de suas forças físicas, mentais e emocionais, encharcado daquela água brilhante que lhe fazia ter todo tipo de visagens. Tirou a roupa para se livrar da água tóxica e se deixou cair vendo seu mundo interno girar dentro da caverna, lavando os olhos com lagrimas.

Levou tempo até que as visões diminuíssem ou ao menos pareceu levar. Jair viu sua vida toda de novo, estivesse com os olhos fechados ou abertos, e sentiu cada momento com o dobro de intensidade. Quando finalmente se recuperou um pouco e conseguiu distinguir a caverna real da sua imaginação e dos seus sentimentos, levantou-se e decidiu mais uma vez continuar a caminhada. Desta vez não podia decididamente continuar, não podia entrar novamente naquela água. O único caminho era para frente.

Seus passos agora eram guiados, pelo toque da parede onde se apoiava, por seu nariz e por um sentimento de familiaridade que não sabia explicar. Em sua mente confusa a caverna se misturava com a sua casa, e com sua mãe, e com a palma de sua mão, coisas que ele conhecia tão bem que tinha a sensação de ser impossível se perder. As luzes no teto começaram a diminuir no caminho até desaparecerem.

Jair enxergava o caminho sem saber como enxergava. As paredes da caverna pareciam brilhar com uma luz vermelha, como se fosse vidro atingido por algum tipo de luz. O som dos seus passos era muito alto e reverberava em todo canto. O ar mudava sutil mas perceptivelmente à medida em que avançava, ficando mais limpo. Parou um instante para descansar em meio a essa intensidade de sentidos e começou a ouvir, de algum lugar bem perto, uma respiração pesada, meio chiada. Olhou ao redor e o som ficava mais forte quando olhava na direção de onde tinha vindo. Parecia um animal fungando forte, farejando alguma coisa. O barulho foi ficando mais alto e o coração do menino acelerou como se também aumentasse de volume. Era melhor sair dali. Voltou a caminhar e ouviu, junto com seus passos o barulho de alguma coisa se movendo atrás de si. Começou a correr cambaleando a criatura surgida Deus sabe de onde começou a correr também, lhe perseguindo. Ao seu lado uma sombra enorme crescia, como de um lobo, cada vez mais próxima. O barulho de seus latidos era tão alto que pareciam estar nos ouvidos do menino. Ele pensou por um instante em desistir, mas correu ainda assim, sem forças e sem saber por que, mas correu simplesmente por que tinha que correr. Viu uma luz surgir à frente, sentiu o ar ficar mais limpo e finalmente irrompeu em uma câmara iluminada da caverna, um beco sem saída. Sem ter o que fazer, encurralado, nu e de mãos vazias, se virou para enfrentar com o resto de coragem que tinha, que era a simples vontade de viver, a fera e seu destino.

Nada aconteceu. Apurando a visão, o que estava à frente do pequeno Jair era o corredor de onde tinha saído, completamente escuro, sem luz vermelha ou qualquer lobo ou fera. No espaço mais aberto em que se encontrava, percebeu que a respiração chiada era sua própria que momentos antes fazia eco nas paredes escuras do corredor. Os latidos eram as batidas de seu coração descompassado. Tudo aquilo aumentado pelo restinho de efeito que a aquela água estranha havia causado.

A câmara onde se encontrava agora era perfeitamente circular e ampla. No teto, exatamente sobre sua cabeça, havia uma abertura redonda sobra a qual o sol incidia diretamente. Olhou ao redor e todas a sua sombra havia se dissipado naquela fonte de luz. Em quatro direções daquele círculo haviam estatuas, igualmente distantes de Jair, cada uma com as mãos estendidas. Uma delas segurava um globo de ouro, a outra uma safira, a terceira um rubi e a quarta um diamante.

Tudo aquilo foi de mais para o menino e ele caiu exausto no chão. Ouviu vozes chamando seu nome e, no limar da consciência, viu uma corda descer do buraco do teto, lhe envolver e lhe puxar para cima, lhe tirando de dentro de um poço de pedra.

Quando acordou estava na cama de casa, sua mãe agoniada na cabeceira rezando um terço. Vendo o menino acordado ela chamou o marido, chorou e agradeceu a Deus. O que lhe contaram é que ele foi encontrado no meio da mata com a roupa em farrapos e alguns machucados perto do sitio de um dos compadres de seu pai. Havia demorado um dia inteiro pra acordar.

Jair ficou em silencio e não contou a ninguém o que tinha vivido. Não sentia vontade. Disse à mãe que não se lembrava. Dias depois, já recuperado, saiu sozinho sob os protestos da mãe em direção à casa do padrinho, no fim da tarde, esperando lá encontrar um pedaço de rapadura, um bolo fubá, um café e os ouvidos atentos do padrinho.

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