Contos Fantásticos

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Mensagem por Aarin Federleicht em Dom Abr 28, 2019 9:31 pm

Contos Fantásticos Falkor10

Este tópico é dedicado a relatos fantásticos que tenham alguma coisa a nos (re)velar de acordo com a proposta do fórum.

A palavra "fantasia" é herança grega: "phantasia" (manifesto, visível), formado a partir do verbo "phaino" (iluminar, lançar luz, fazer aparecer) ou do substantivo "phos" (luminosidade). É uma origem comum à palavra "fenômeno". Assim sendo, aqui podemos tentar revelar aquilo que a incidência direta da luz da linguagem descritiva algumas vezes queima e desnatura.Sejam histórias autorais ou mitos conhecidos, coisas vividas ou imaginadas, sintam-se à vontade para compartilhar sempre respeitando a própria individualidade e a do próximo, e assumindo a responsabilidade total pelo que posta.

Deixo aqui um texto sobre fantasia que gosto bastante e com o qual me identifico (Fantasia - Alice Liquor), e logo abaixo a minha pequena fantasia sobre as histórias do mundo.

"Em uma antiga árvore brotavam vários galhos em todas as direções formando uma copa verdadeiramente extensa, de vários quilômetros. Aqueles que habitavam sob seus galhos periféricos viam o azul do céu e o brilho das estrelas, mas sofriam as vezes com o sol e com a chuva pela pouca proteção da folhagem espaça, e se nutriam pouco dos frutos mirrados e de fracas sementes que saim das pontas secas. Aqueles mais ao centro da circunferência que a copa criava gozavam de sombra, frescor e proteção da chuva; comiam os suculentos, robustos e nutritivos frutos que caiam dos galhos altos atirando suas promissoras sementes no chão e, as vezes, tinham a sorte de receber dos céus um galho fresco cheio da seiva medicinal da árvore, mas não conheciam nada nem acima nem abaixo de si, contavam indefinidamente com a sorte, e não viam nada de grandioso que brotasse vingar pois faltava luz do sol. Os que se aproximavam do centro, o ponto mais obscuro, úmido e silencioso da árvore por ser o ponto com a folhagem mais densa, conheciam a sua estrutura, viam as direções para onde as raízes se espalhavam quase como um mapa, conheciam os poderes curativos de sua seiva fresca, podiam escalar seu tronco, desbravar seus galhos, tomar os seus frutos por si mesmos, conhecer as aves e insetos que levavam as sementes para longe e, se tivessem coragem, ver o nascer e o pôr do sol e da lua quase entre as estrelas, onde o horizonte era a própria circunferência da terra."


Última edição por Aarin Federleicht em Ter Abr 30, 2019 8:33 pm, editado 2 vez(es)

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Mensagem por Aarin Federleicht em Dom Abr 28, 2019 9:44 pm

Conto de inverno


Contos Fantásticos Orphic11

Pai e filho viviam em uma pequena fazenda, juntos e sozinhos. A mãe morrera pouco depois do nascimento do menino, acometida por um mal respiratório trazido pelos últimos ventos do outono e que abateu alguns dos mais frágeis daquela região do mundo. Os vizinhos, não tão próximos como costuma ocorrer na cidade, foram solidários de inicio em confortar a reduzida família e ajudar o pai solitário, mas as trilhas que ligavam as fazendas pareciam ficar mais longas à medida que o inverno as percorria, as pegadas apagadas pelas chuvas. Assim, o homem teve que aprender a cuidar do menino, da terra e do próprio homem e, pela solidão, teve medo de perder cada uma dessas coisas.

O menino vingou os invernos protegido pelo calor do peito do pai e aproveitou as primaveras, verões e outonos sustentado pelas mãos do pai. Cresceu sem sentir falta de nada e sem esforço, sem ter que trabalhar um dia sequer nas tarefas da fazenda, assumidas todas pelo homem. Seus esforços eram guiados por sua simples curiosidade de criança, avido por conhecer o mundo ao redor. Tudo era estável e o mundo se lhe apresentava benevolente.

Ao se aproximar o nono inverno desde de a chegada da criança, num dia em que o homem trabalhava na ultima colheita daquele ano, o menino, brincando ao redor do campo, encontrou um pequeno ovo em meio as folhagens aos pés de uma árvore. Correu até seu pai para mostrar o ovo que havia fugido do galinheiro e se perdido na floresta, preocupado em coloca-lo de volta em seu lugar junto à mãe para que pudesse nascer. O homem sabia que aquele não era o ovo de galinha. Escondeu sua preocupação do menino e pediu que lhe apontasse o lugar onde encontrara o objeto. Em seguida, levou o menino até o escuro do quarto onde guardava suas ferramentas, acendeu uma vela e colocou o ovo contra a luz. O que apareceu para a criança, foi uma linha enrolada dentro da casca.

- Filho, este ovo não é das galinhas, é de um animal que você ainda não conhece, a serpente. Pelo tamanho é de um tipo que pode crescer bastante. Elas se alimentam de animais menores e são muito perigosas. Algumas podem matar com apenas uma mordida, outras podem se enrolar no corpo de um animalzinho até sufocá-lo. Elas trocam de pele, se escondem e podem se disfarçar de galhos de arvores e pedras. Quero que você tome muito cuidado quando estiver brincando lá fora.

O menino, ao invés de ficar assustado com o alerta do pai, teve sua curiosidade atiçada. Existia uma animal que nascia de ovos, mas que não era um pássaro, se parecia com uma linha enrolada e era capaz de trocar de roupa e se vestir de árvore e pedra. Pediu ao pai que cuidassem do ovo como faziam com os das galinhas, ele queria ver como era aquele bicho, o que fazia, como vivia. Partiu o coração do pai negar alguma coisa ao menino, mas mandou a criança com a cara emburrada para casa, guardou o ovo em uma caixa no quarto de ferramentas, e voltou para o campo. Antes de o sol se pôr, armado de sua foice, foi até o lugar que o menino apontou e encontrou o ninho nas raízes de uma arvore logo acima do local da descoberta. A cobra mãe tinha a mesma cor do tronco que a escondia. Sozinho, o homem não hesitou em proteger sua própria família.

Naquela noite, o homem dormiu cedo querendo deixar para trás o cansaço do trabalho e a tensão do dia. Ao buscar suas ferramentas na manhã seguinte, pronto para concluir seu trabalho, o homem se lembrou da caixa e do ovo. Ao abrir a tampa, pronto para se livrar de seu conteúdo, viu que a cobra havia nascido. Era um animal surpreendente para um recém-nascido, totalmente formado, de uma cor tão escura que os padrões de sua pele eram quase imperceptíveis. Não podia dar um fim àquilo antes de mostrar ao filho.

Quando o menino viu aquilo, seu entusiasmo parecia não ter limites. Que animal curioso: comprido; brilhante; sem pernas, mas ágil; nascido de um ovo. Ele queria saber tudo sobre a criatura, queria ver como aquilo crescia. Para o homem, o brilho nos olhos do menino era o que surpreendia. Os apelos da criança derreteram com facilidade sua resolução e ele pensou: por que não? Seria uma boa oportunidade para o menino aprender sobre o mundo e as coisas da natureza de forma segura, controlada pelo pai. Ele ficaria responsável pela alimentação e cuidados também do animal até que fosse seguro para o menino.

Assim se passaram mais nove anos. O pai trabalhava por ele, pelo menino e pela fazenda. O menino observava, aprendia e imaginava o mundo. A serpente crescia sem muita perturbação dentro de uma cristaleira adaptada em aquário no quartinho de ferramentas, sob o olhar de um e cuidados do outro.

Uma noite, perto do nono inverno depois da descoberta do ovo, após um longo dia de trabalho perto da ultima colheita, o homem foi alimentar a serpente. Sua barba já era branca pelo cansaço; sua pele queimada pelo sol era bastante enrugada e, seca, parecia um mosaico; sua coluna curvada já começava a ceder ao peso dos anos. Por todo aquele tempo nunca deixou a serpente aos cuidados do filho, ainda o enxergava como um menino. Naquela noite, ao abrir a porta da cristaleira para atirar lá dentro um camundongo recém abatido no celeiro, aquele senhor viu suas vistas escurecerem, sentiu seu corpo ficar leve e parecer rodar no ar até não perceber mais nada.

Quando acordou estava em um lugar escuro e com o corpo apertado, imobilizado, como se vestisse uma camisa de força. Tentou se mexer e ouviu ecoar em seu crânio um grito sibilante de dor:

- O que está fazendo dentro de mim? Por que me provocas dor?
- Dentro de quem? Quem fala dentro de minha cabeça?
- Sou a serpente que criaste desde ovo. Não falo de dentro de tua cabeça, mas tu me ouves desde meu interior. Te engoli inteiro quando vi teu corpo inerte caído no chão, pensei que era a oferta do dia, um presente.
- Monstro traiçoeiro! Me cospe para fora já ou acabo com tua existência imunda!
- Não posso fazer isso pois conheço tuas intenções. Sinto o cheiro de teu medo desde o início, vais matar-me ainda que te deixe sair. Tu já estás velho e não tens força para fugir ou me abrir por dentro.
- Serpente ingrata! Te alimentei e cuidei desde sempre e é assim que me retribuis, me devorando?
- Não me cuidastes por amor a mim, mas por teu filho, pois esta é tua natureza. Minha natureza é devorar e não posso ir contra ela. Te devoro e devorarei tudo aquilo que se apresentar a mim como presa.
Só então o homem sentiu a ira dar lugar ao pavor. Seu filho estava na fazenda e a serpente estava livre.
- Não permitirei jamais que devores meu filho! Posso não ter forças para sair, mas se sentir que estás a me digerir, te causarei enorme dor até que não mais suportes.

A serpente refletiu. Não podia libertar o homem, pois morreria. Não podia comer nada enquanto ele estivesse ali, pois não havia espaço. Não podia dissolver o homem rapidamente pois ele podia lhe causar uma dor verdadeiramente intensa, e não queria isso. Ele era uma presa grande e robusta, poderia nutri-la durante muito tempo se ela soubesse administrar sua condição. Com sua melhor voz de desdém a serpente anunciou ao homem:

- Faz como quiseres, não te deixarei sair. Tua força agora tende apenas a diminuir. Tu já compartilhas da minha natureza, de outro modo não poderias me ouvir, e será cada vez mais assim.

E assim a cobra se arrastou lentamente para a mata que circundava a fazenda.

Na manhã seguinte o rapaz não deu falta do pai e cuidou da casa. No almoço, estranhou a ausência e durante a tarde saiu em sua procura. Percorreu toda a fazenda sem nada encontrar. Com o sol se pondo, voltando ao lar, viu as pegadas das botas do homem na entrada do quarto de ferramentas que tinha a porta aberta. Entrou chamando pelo pai, acendeu uma lamparina e o que viu foi a cristaleira aberta e um grande rastro na poeira e serragem do chão. Uma série de pensamentos aterradores invadiram sua mente por apenas um segundo: a imagem de seu pai sozinho naquele quarto com a serpente a solta; um animal agonizante encolhido num canto da cristaleira; o bote certeiro num camundongo. Foram pensamentos que surgiram e não tiveram tempo de se instalarem na consciência do rapaz, afundando rápido no mar de terror que paralisou seu corpo no lugar. Assim que pode, o menino agarrou uma foice que estava próxima e correu para casa. Fechou todas as portas e todas a janelas e se encolheu no quarto tremendo de medo. A serpente poderia estar em qualquer lugar, devia ter cuidado. E seu pai... ficaria muito desapontado quando soubesse que o animal havia fugido.

Durante todo aquele inverno o rapaz ousou sair de casa apenas nos primeiros dias, a procura do pai. Depois se trancou em casa, devorando as provisões já estocadas para o período e sendo devorado pelo medo. Ao fim do inverno, a escassez batia à porta, não sabia racionar a comida dos animais e desperdiçara um tanto. Ele mesmo não sabia caçar e a ultima colheita não foi completa.

Na primavera, se atreveu sair, sempre com a pequena foice na cintura, absolutamente alerta ao ambiente que o cercava. Tudo o assustava. A serpente poderia estar em qualquer lugar, poderia pegá-lo pelo pé no próximo passo, poderia emboscá-lo a partir de qualquer árvore. Colheu as primeiras frutas que surgiram e tentou fazer armadilhas para os pequenos animais que saiam de suas tocas. Não sabia plantar, mas fez o melhor que pôde com uma pequena horta nos fundos de casa. Durante o ano vendeu quase todos os animais da fazenda pelo preço que pode a quem quisesse comprar.

Quando as coisas apertaram, pediu ajuda aos vizinhos. Mentiu que o pai estava doente, que a colheita do ano anterior foi pobre e deu sementes ruins. Disse que a fazenda era grande de mais para um homem só cuidar. Despistou todos que pretenderam fazer uma visita ao velho homem e ninguém desconfiava, afinal os dois sempre foram pessoas reclusas. Trabalhou nas fazendas da região que receberam aquele menino inexperiente, fraco e medroso por pura consideração ao antigo amigo, seu pai, que não viam havia muito tempo.

Aquele foi o ano mais duro da vida do rapaz. Teve que cuidar de si mesmo, aprender tudo o que não aprendera em seus dezoito anos sobre cuidar de uma fazenda, enfrentar seus medos em silêncio convivendo com o fantasma da serpente, e lidar com a solidão de estar no mundo tendo que prover para si mesmo.

No ano seguinte, com a experiência que adquiriu, passou a cuidar da sua própria produção, no solo que era de sua família. Conheceu cada canto de sua fazenda, se familiarizou com cada ferramenta e cada possibilidade e necessidade de trabalho que havia ali. Aprendeu a se precaver, seu medo fazia com que tivesse o máximo de cuidado em cada atividade. Cuidava não só de sua segurança, mas também da organização das coisas e da casa, pois ainda imaginava que seu pai podia voltar a qualquer momento. Nos dias frios esse pensamento o perturbava um pouco mais, alguma coisa na ideia o incomodava até que conseguisse dormir. Então sonhava que estava no meio do campo, e a voz de seu pai chamando de dentro da escuridão da mata cerrada que circundava a fazenda.  Quando acordava nunca lembrava do inicio ou do fim do sonho e estava mais preocupado com as questões práticas da produção e da segurança.

Assim passaram os anos. O menino virando homem e aprendendo a cuidar da casa para a chegada de seu pai, cultivar a fazenda e se precavendo da serpente. Com o tempo sua vida se moldava a todo aquele lugar, cada movimento que antes lhe era trabalhoso se tornava sua natureza e, para além da necessidade, seu aprendizado lhe permitia produzir para seu próprio conforto.

No nono outono desde a partida de seu pai, após a ultima colheita, o homem se preparava para dormir. Entrou no quarto coberto por uma coberta de lã, numa mão uma vela que deixou acesa sobre o criado mudo, na outra a foice de cabo cumprido para a colheita, que deixou encostada na cabeceira, ao alcance da mão. Naquela noite sonhou que estava no meio do campo e tudo o que se ouvia era o farfalhar da mata com o vento, que conversava com ele.

Do lado de fora da casa havia o som de uma serpente que se arrastava, tão grande que dava uma volta completa na casa. Sua boca encontrou a calda exatamente sob a janela do quarto em que o dono da fazenda dormia. Ela ergueu sua cabeça negra olhando pela janela e, por mais um ano, observou o homem dormir na noite de seu aniversário.

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